A quem interessa
- “Que história é essa de que trânsito deveria interessar a todo e qualquer cidadão?”
Foi o que ouvi de um senhor que assistia, em meio a mais de uma centena de professores, a uma das minhas muitas palestras sobre o assunto. O homem quase gritava, visivelmente nervoso. Fiquei pensando se eu não teria exagerado naquela tela do Power Point com as últimas estatísticas de acidentes de trânsito.
Fiz uma rápida revisão mental e fiquei tranqüilo. Claro que eu não tinha exagerado. Todos sabemos que os trinta e poucos mil mortos a cada ano é um número subestimado. Também avaliei se eu não teria me entusiasmado demais – eis meu defeito – e carregado as correlações que fiz com o dia-a-dia das crianças, dos pais, professores, condutores, em relação às responsabilidades que contraímos, ainda que inconscientemente, quando o assunto é trânsito. Minha auto-resposta foi não. Eu até nem tinha feito muitos apelos, não tinha usado nem um terço dos argumentos do meu arsenal. Mas a reação daquele homem me deixou preocupado.
Já perdi a conta de tantas pessoas com quem falei sobre o assunto. As pessoas sempre ficam impressionadas, perplexas, com cara de quem nunca tinha parado para pensar sobre o assunto. Volta e meia alguém reage de forma mais intensa. Foi o caso dele. Aquele homem levantou-se já falando alto e apontando o dedo pra mim. Mas ele não me acusava, exatamente. Ele protestava esbravejando contra o cidadão desinformado que, naquele momento, descobria ser.
Relatou-me, no final do evento, que sua sensação foi de extremo desconforto por descobrir, de repente, que podia ter feito algo efetivo para mudar a história de sua vida. Que tinha perdido muito tempo brigando com guardas, multas e acidentados que, assim como ele, também amargavam a dor de perder alguém querido.
Por fim, para meu alívio, agradeceu.
- “Isto que você está fazendo é muito importante”, disse ele.
Abraçou-me e saiu com os olhos mareados. Aí vai um cidadão que acaba de despertar para a dura realidade que, no trânsito, todos temos uma parcela de responsabilidade, pensei. Minhas palestras nunca mais foram as mesmas.
abril 3rd, 2007 às 9:44
O poder de transformação é uma coisa fascinante.
Desde os primórdios o homem se transforma, desde o Contrato Social “Rousseauniano”. O homem começa a perceber de maneira mais intensa que é a sua atitude que proporciona mudanças na vida Pessoal e Social.
Claro que antes de Rousseau o homem já havia percebido tal poder de transformação, mas foi a partir daí que as mudanças efetivamente foram sendo concretizadas de maneira mais duradoura e fundamentada.
Mudanças como essa é que são necessárias para a melhoria do trânsito, e ela pode acontecer com mais força partindo de todos nós!
Celso, parabéns pelo texto, e pelas palestras, esperamos que possa levar o poder da transformação e conscientização para mais pessoas.
Repito as palavras do “Senhor citado no texto: Isto que você está fazendo é muito importante”.
Mais uma vez Parabéns!
abril 3rd, 2007 às 11:13
Obrigado, Aurélio. Espero que o tal senhor de quem falei não tenha deixado morrer a sua indignação com o status quo do trânsito brasileiro. Nós todos, realmente, precisamos nos indignar mais com as coisas que estão erradas. “Indignação Positiva” é ingrediente indispensável para gerar as atitudes que mudam, que transformam.
abril 11th, 2007 às 10:31
Acredito que essa desinformação quanto ao cidadão à seu dever, ocorre pelo fato de que antes de entra em vigor o Novo Código de Trânsito, os condutores não eram preparados para o trânsito, não era feito a conscientização para a humanização no trânsito.
E essa conscientização só vai haver através da Educação no Trânsito, que pode ser promovida pelos órgãos governamentais, cfc’s, escolas particular e pública e empresas que estejam dispostas em colaborar com uma sociedade melhor.
abril 12th, 2007 às 9:58
Patrícia, você tem razão. E eu poderia ainda acrescentar: as famílias também poderiam (deveriam) preparar melhor suas crianças para o trânsito. Mas este é tema para um grande debate: as famílias estão preparadas para isso? Há um esforço a ser feito por todos os setores da sociedade, sem dúvida.
setembro 27th, 2007 às 19:28
Todos os cidadãos são responsáveis pelo trânsito e é através da educação dos valores é que todos vão conseguir respeitar as leis e as vidas que estão em jogo. Esse trabalho de levar o cidadão a refletir sobre suas práticas no trânsito é importantíssimo. Que você consiga cada vez mais despertar a reflexão de pessoas que acham que nada têm a ver com a triste estatística de vidas perdidas no trânsito.
janeiro 10th, 2008 às 16:12
Rosilda. Obrigado por suas palavras. Realmente, somente quando formos despertados deste “sono” que nos faz pensar sermos imunes aos problemas do trânsito, assistiremos a sociedade, por vontade própria, exigir condições melhores: dos veículos, vias, autoridades, leis e, sobretudo, Educação para o Trânsito, eficaz e efetiva.